E-mail que mandei para os guri do Pretinho Básico da Rádio Atlântida, que está com uma campanha anti-drogas, juntamente com o Grupo RBS, mas a deste focado no crack.
Peço que leiam e me digam se o meu psiquiatra me deu alta enganado:
Colaboro seguido para o programa e estou há dias pensando em escrever sobre isso, por conta de uma hiperatividade inegável, só agora que mando.
Peço que leiam e me digam se o meu psiquiatra me deu alta enganado:
Colaboro seguido para o programa e estou há dias pensando em escrever sobre isso, por conta de uma hiperatividade inegável, só agora que mando.
Não tenho qualquer pretensão de que seja lido no ar, fiquem a vontade (pauta livre para o Fetter...).
Farei 34 anos no próximo dia 29, sou advogado, pai de duas meninas e um adicto recuperação (mais de 11 anos limpo).
O Fetter parou de ficar todo putinho por causa das piadas a respeito da campanha Anti-Drogas da Rádio Atlântida, também acho melhor assim.
Como tenho alguma experiência com isso, própria e no trabalho voluntário em Clínicas de Recuperação, Narcóticos Anônimos e Alcólicos Anônimos, posso dizer o que sinto quando escuto a campanha, em tópicos (já postados no Twitter):
1-A campanha anti-drogas da Rádio Atlântida usa a mentira e o medo com sua audiência, últimos líderes que usaram as mesmas táticas com a própria população, Bush, Pinochet, Hitler...;
2-Sou fã do Fetter e toda a Rádio, mas seria mais indicado uma pesquisa sobre prevenção e tratamento, antes e colocar no ar a campanha, links interessantes:
AA
NA
3-A maior autoridade brasileira em dependência química trabalha no Hospital Mãe de Deus, próximo da Rádio, Dr. Sérgio de Paula Ramos e várias vezes já contribuiu com a RBS, cuja consultoria seria essencial para a Campanha;
4-Segundo o que entendo (experiência própria), qualquer campanha publicitária negativa e fantasiosa, só ilude e nega o problema e estas são características próprias da dependência química.
5- Ninguém começa a fumar crack sem ter bebido antes..."mas o álcool não é o problema", como é que é?
(olhando bem, o único que largou a hipocrisia foi o Piangers, que disse esses dias, "então sou contra a Campanha, chefe")
6- È muita hipocrisia atacar o crack sem atacar a bebida, primeira droga utilizada por 100% dos usuários de crack.
7- Polícia combate o tráfico, o uso é assunto de saúde, para isso existem médicos.
8- Debater o uso de drogas com a polícia é como discutir surf como o Oscar Schmidt, não sabem os locais, materiais e os cuidados.
9- Não entendo de rádio, mas acho impossível fazer campanha anti-drogas com propaganda de bebida alcoólica no mesmo bloco COMERCIAL.
Bom, isso é o que penso, respeito opiniões em contrário.
Porque o problema não é combater o uso de drogas em si, mas sim a hipocrisia com todos tratam o tema, desde casa. Todos temos receio de dizer para as crianças como as coisas acontecem na vida, fantasiamos e assustamos. Entretanto, elas presenciam os pais tomando remédios para dormir, fumando, bebendo e outros hábitos piores, ou seja, não falo sobre a maconha que meu filho vê todos os dias na rua, mas ele pode me ver tomando trago desde bebê e pode beber quando fizer 15 anos. Essa é a hipocrisia que a Rádio deveria atacar.
Fazer uma história fictícia, mentira, com trilha de filme de terror B, não resolve nada. O problema é real e muito próximo dos jovens, não vai aparecer no cenário que sugere a campanha, mas durante um dia ensolarado, com uma música alegre, numa quadra de esportes, etc...
O ambiente que as drogas aparecem não é assustador. Pode ser até dentro de casa, por isso seria mais eficaz mostrar que a vida tem coisa muito mais interessante que o uso de drogas e que o barato é viver sóbrio, coisa que demorei para entender.
Já dei palestras sobre minha experiência de drogas, internação e tratamento de idiotas como eu, conto minha história e o preço que pago pela merda que fiz, sem frescura, sem mentira, história real de vida SEM DROGAS, nunca de morte.
A campanha é equivocada no formato (mentira e medo) e no conteúdo, inventar uma morte não afasta ninguém das drogas, pelo contrário, por conta de outros problemas psiquiátricos, muita gente usa, procurando morrer mesmo ou prefere morrer a parar de usar (comum nos primeiros dias sóbrio).
Tem mais, sei que o problema é sério, mas a solução não precisa ser.
Não sou publicitário, nem jornalista, mas a abordagem que mais seduz é a da graça, uma piada é melhor decorada pela maioria que um poema. As situações cotidianas são melhor assimiladas, tiradas curtas e engraçadas, de situações reais, teriam o efeito preventivo ao uso de drogas, sem ranso. Chamando a atenção para a alegria de viver sem drogas. A prevenção do uso ou da recaída é a técnica mais eficaz de combater as drogas.
Temos vários exemplos de figuras que podem ser exploradas, o primeiro, o Fetter mesmo deve ter conhecido: jogador de basquete que vira motivo de riso na quadra por entrar chapado (clássico); o amigo que chega travado num aniversário e fala sem parar como se fosse o rei do mundo, mas sai sozinho da festa, porque é muito chato; o povinho que passa mais tempo no banheiro do que na festa; aqueles não sabem como é agradável uma manhã de domingo; como é bom viver sem medo de nada, porque não se tem nada a esconder; como é boa a sensação de fazer o certo; ser merecedor de um elogio, mesmo que ele não venha, etc...
São minhas sugestões, situações reais, que também podem ser trágicas, todos temos amigos mortos por causa das drogas e isso também pode ser mostrado, de forma real, p. ex.: "Vocês lembram como era boa nossa turma do futebol na pracinha da Zona Nova em Capão?" Lembra uma vez que o Betão Cenoura foi costurando a rua para casa, subiu no apartamento e ficou vomitando na sacada do quarto andar e tu se mijou de tanto rir? O Beto era gente fina, pena que morreu..." Realidade, alegre da vida sem drogas e triste pelas tragédias que vivemos em razão delas, mas a realidade, simples e sincera.
Para finalizar, as piadas e caricaturas que os ouvintes enviaram estão ótimas e são bons feedbacks para a campanha, o pessoal está ouvindo e isso já é um começo, mas pode ser melhor e mais eficaz, se feito de maneira mais leve e que realmente contamine a cabeça do piazedo (coisa da Fronteira).